77%do gásproduzido no Brasil vem do pré-sal, no fundo do mar.1
Mais da metade do gásque sai dos poços volta para dentro deles: de janeiro a agosto de 2025, foram 94 de cada 173 milhões de metros cúbicos por dia.2
15,2gigawatts de usinas a gásforam contratados no leilão de reserva de capacidade de março de 2026, cerca de 78% do total do leilão.3
Para comparar esta fonte com as outras em segurança, emissões e terra ocupada, veja a página Comparativos.
Como funciona
Usina a gás de ciclo combinado Otahuhu B, na Nova Zelândia. Foto: Stug.stug, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Pense numa panela com água no fogão. O fogo esquenta a água, a água vira vapor, e o vapor empurra a tampa. Uma usina a gás faz algo parecido, só que muito maior: ela queima gás, e o calor vira movimento, que vira eletricidade.45 Mas, antes de chegar à usina, o gás faz uma longa viagem.
Veja passo a passo
1
Desenho do Mundo Energia Brasil, fora de escala. Os passos seguem o texto acima e as fontes das notas da seção.
Passo a passo, em detalhe
1. O gás nasce nas rochas. Há milhões de anos, restos de seres vivos ficaram enterrados e, aos poucos, viraram petróleo e gás natural. Eles ficam presos nos poros de rochas, como água numa esponja.4 No Brasil, a maior parte vem do pré-sal: rochas muito fundas, abaixo de camadas de sal no fundo do mar.41
2. A plataforma tira o gás do fundo do mar. Um poço liga a rocha a uma plataforma. O que sobe é uma mistura de petróleo, gás e água, que a plataforma separa.6 Uma parte do gás volta para dentro do poço; o resto segue por gasodutos, canos no fundo do mar, até a costa. O Rota 3, o gasoduto mais novo do pré-sal, tem 355 quilômetros.78
3. Uma fábrica limpa o gás. Na costa, uma unidade de processamento, a UPGN, separa o gás "rico" do pré-sal em partes: o gás natural que vai para os canos, o GLP, que é o gás de cozinha do botijão, e uma parte mais pesada, usada pela indústria.9 O gás que vem de longe pode chegar de navio: gelado a 162 graus abaixo de zero, ele vira líquido e ocupa 600 vezes menos espaço. É o gás natural liquefeito, ou GNL. No porto, um terminal esquenta o líquido, e ele volta a ser gás.101
4. A turbina a gás gira o gerador. Na usina, a turbina puxa ar, mistura com o gás e queima. O ar muito quente empurra as pás da turbina, que giram depressa. O eixo da turbina gira um gerador, a máquina que transforma o giro em eletricidade.115
5. O calor que sobra faz vapor. O ar que sai da turbina ainda está muito quente. Nas usinas de ciclo combinado, ele ferve água numa caldeira, e o vapor gira uma segunda turbina e um segundo gerador. Assim, sai até 50% mais eletricidade do mesmo gás.115 Uma usina dessas pode transformar em eletricidade até cerca de 55% da energia do gás; o resto vira calor.12
6. A energia vai para a rede quando o ONS chama. A eletricidade sobe para as linhas de transmissão. Quem decide quando cada usina liga é o ONS, que usa as térmicas para poupar a água dos reservatórios das hidrelétricas.13 Por isso, em 2025, as usinas a gás geraram 2.260 gigawatts-hora em janeiro, na época das chuvas, e 5.310 em novembro, depois da seca.14
Saiba mais: ciclo simples e ciclo combinado
Há usinas só com a turbina a gás, chamadas de ciclo simples. Elas aproveitam menos o combustível, mas ligam rápido, e por isso são usadas nos momentos de pico.5 As de ciclo combinado, com a caldeira e a turbina a vapor, aproveitam melhor o gás e são a principal tecnologia, segundo a UNECE.5
Do poço à usina
O gás que chega a uma usina brasileira pode fazer três caminhos diferentes.
Pelo fundo do mar. A maior parte vem do pré-sal, no litoral do Sudeste, por gasodutos que chegam a unidades de processamento em Caraguatatuba (SP), Cabiúnas (RJ) e Itaboraí (RJ).81 A de Itaboraí, ligada ao Rota 3, chegou em 2025 à capacidade de 21 milhões de metros cúbicos por dia.9
Por navio. O Brasil tem 8 terminais de gás liquefeito, que recebem o GNL de navios e o devolvem ao estado gasoso.1 A maior parte das usinas a gás contratadas em 2026 fica em regiões com acesso a esses terminais, a portos e a gasodutos.3
Do poço direto para a usina. Em alguns lugares, a usina é construída perto dos campos de gás em terra. No Maranhão, a Eneva gera energia no Complexo Parnaíba, com 1,9 gigawatt, ao lado dos poços. Em Roraima, o gás do campo de Azulão, no Amazonas, é transformado em líquido e levado de caminhão por cerca de 1.100 quilômetros até a usina Jaguatirica II, em Boa Vista.15 No Amazonas, um gasoduto de 661 quilômetros leva desde 2009 o gás de Urucu até as usinas de Manaus.16
Saiba mais: o gás que vem da Bolívia
O Gasbol, gasoduto Bolívia-Brasil, começou a operar em 1999 e vai da Bolívia até Canoas, no Rio Grande do Sul, com capacidade para cerca de 30 milhões de metros cúbicos por dia.17 De janeiro a agosto de 2025, o Brasil recebeu em média 12,3 milhões de metros cúbicos por dia da Bolívia.2 O plano da EPE considera que essa importação vai diminuir.18
Linha do tempo no Brasil
1999
Começa a operar o gasoduto Bolívia-Brasil, o Gasbol.17
2000
O governo cria o Programa Prioritário de Termeletricidade, para estimular a construção de usinas térmicas, com garantia de fornecimento de gás natural.19
2006
A Bolívia nacionaliza o petróleo e o gás. O governo boliviano assume o controle de uma unidade de gás da Petrobras no país.20 No mesmo ano, o gás entra pela primeira vez nos leilões de energia: 2 usinas e 1.023 megawatts.21
2009
Sai a primeira Lei do Gás, sobre o transporte por gasodutos.22 No Amazonas, é inaugurado o gasoduto Urucu-Coari-Manaus.16
2014
Ano recorde do gás nos leilões, com 3.059 megawatts vendidos.21
2021
A nova Lei do Gás é sancionada.23 Meses depois, a lei da privatização da Eletrobras passa a obrigar a contratação de 8.000 megawatts de térmicas a gás.24
2024
Começa a operar o Rota 3, terceiro gasoduto do pré-sal, com 355 quilômetros e capacidade para até 18 milhões de metros cúbicos por dia.8
2025
A obrigação de contratar as térmicas da lei da Eletrobras é revogada.24
2026
O leilão de reserva de capacidade contrata 15,2 gigawatts de usinas a gás, novas e antigas.3
2028previsto
Começam a entrar as usinas a gás novas contratadas no leilão de 2026, até 2031.325
Como o gás é usado hoje
O gás não serve só para fazer eletricidade. De janeiro a agosto de 2025, a indústria usou em média 40,1 milhões de metros cúbicos por dia, e as usinas, 19,4 milhões. Carros e ônibus a gás usaram 4,1 milhões, e as casas, 1,6 milhão.2 O uso das usinas é o que mais muda: em agosto, mês de seca, elas usaram 31,8 milhões por dia.2 No ano todo de 2025, 36,8% do gás consumido no país foi para gerar eletricidade.26
A reserva das hidrelétricas. O Brasil gera a maior parte da sua energia com água. As usinas a gás funcionam como uma reserva: o ONS as liga mais quando chove pouco, para poupar os reservatórios.1314
Por que as usinas a gás geram. O ONS registra o motivo de cada geração térmica. Uma das razões é a inflexibilidade: a geração que a usina declara que precisa fazer, ou a que passa do que o ONS pediu. Em 2025, nas usinas a gás identificadas, 38,4% da energia foi classificada como inflexibilidade fora da ordem de custo, 18,4% como inflexibilidade que também seria escolhida pelo custo e 29,7% como geração escolhida só pelo custo, quando a usina era mais barata que as alternativas. O resto foi para exportação, restrições de rampa e de tempo mínimo ligada ou desligada, e outras razões.2728
Saiba mais: por que uma usina é "inflexível"?
Uma usina inflexível gera mesmo quando outra seria mais barata, porque declarou ao ONS que precisa gerar um mínimo.28 A lei de 2021 da Eletrobras exigia que as novas térmicas a gás tivessem inflexibilidade de pelo menos 70%; essa obrigação foi revogada em 2025.24
As leis do gás e quem as fez
A Lei do Gás de 2009. Foi a primeira lei só sobre o gás natural. Ela tratou do transporte por gasodutos, da estocagem e da comercialização.22
A nova Lei do Gás, de 2021. Ela trocou a lei de 2009 e tentou abrir o mercado para mais empresas. Exige autorização da ANP, a agência do petróleo e do gás, para o transporte por gasodutos, a importação, a estocagem, o processamento e os terminais de gás liquefeito.23 O projeto (PL 6.407/2013) foi aprovado na Câmara em setembro de 2020, por 351 votos a 101.29 O relator na Câmara foi o deputado Laércio Oliveira (PP-SE); no Senado, o senador Eduardo Braga (MDB-AM). O Senado mudou o texto, e a Câmara rejeitou as mudanças antes da sanção, em abril de 2021.3023
As térmicas da lei da Eletrobras. A medida provisória que permitiu privatizar a Eletrobras ganhou, no Congresso, a obrigação de contratar 8.000 megawatts de térmicas a gás: 2.500 no Norte, 2.500 no Centro-Oeste, 2.000 no Sudeste e 1.000 no Nordeste, em parte em lugares sem gasoduto, com contratos de 15 anos.24 Os relatores foram o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA), na Câmara, e o senador Marcos Rogério (DEM-RO), no Senado, onde o texto passou por 42 votos a 37.31 Críticos, como o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), chamaram esses trechos de "jabutis", porque não tinham ligação com a privatização.32 A equipe de transição do governo eleito em 2022 calculou que essa obrigação custaria R$ 368 bilhões aos consumidores.33 Ela foi revogada em novembro de 2025, pela Lei nº 15.269.2434
Quem representa o setor
O gás tem quem o produz, quem o leva pelos canos, quem o queima nas usinas e quem paga a conta; cada um tem sua entidade. Essas entidades mandam sugestões à ANEEL e ao Ministério de Minas e Energia nas consultas públicas, falam em audiências no Congresso e, às vezes, vão à Justiça. O que elas dizem sobre si mesmas, como o número de associados, é dado da própria entidade.
Empresas do setor
IBPInstituto Brasileiro de Petróleo e Gás
Empresas de petróleo e gás.
Ver mais
Quem faz parte. Diz reunir 216 empresas, 27 delas produtoras de petróleo e gás35, responsáveis por 94% da produção de gás do país.36
O que defende. Defendeu o leilão de reserva de capacidade de 2026 como central para a segurança do sistema.36 Prevê forte aumento da oferta de gás produzido no país em 5 a 10 anos.35
Onde aparece. Na Comissão de Minas e Energia da Câmara, em agosto de 2025, e no debate sobre o leilão de 2026.3536
Geradores
ABRAGETAssociação Brasileira das Geradoras Termelétricas
Donos de usinas térmicas.
Ver mais
Quem faz parte. Donos de usinas térmicas37: diz reunir 50 associados, com 25 mil megawatts a gás, nuclear, óleo, diesel e carvão, além de fornecedores e investidores.38
O que defende. Diz que o leilão de 2026 evita custos de blecautes e racionamentos e que baterias não substituem as térmicas.37 Em 2024, chamou o leilão de reserva de capacidade daquele ano de "leilão de confiabilidade", um serviço que, para ela, só térmicas e hidrelétricas com reservatório prestam.38
Onde aparece. Na Comissão de Minas e Energia da Câmara, em audiência sobre o leilão de 202438; defendeu o leilão de 2026 diante das ações na Justiça.37
Distribuidoras
ABEGÁSAssociação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado
Distribuidoras de gás canalizado.
Ver mais
Quem faz parte. Criada em 1990, reúne as empresas que distribuem gás pelos canos das cidades39: 22 em operação, em 19 unidades da federação, com mais de 47 mil quilômetros de rede e mais de 5 milhões de clientes, segundo a associação.40
O que defende. Diz que o gás e o transporte são de 60% a 80% do preço final, e a distribuição, o resto.39 Pede mais concorrência na venda do gás, com leilões obrigatórios de parte do gás do maior vendedor, e térmicas a gás para dar firmeza às renováveis.40
Onde aparece. Em 2026, publicou suas propostas para os candidatos à Presidência.40
Consumidores
ABRACE e Frente Nacional dos Consumidores de Energia
Grandes consumidores e entidades de consumidores.
Ver mais
Quem faz parte. A ABRACE diz reunir mais de 50 grupos empresariais, com quase 40% da eletricidade e 42% do gás que a indústria consome.41 A Frente reúne entidades de consumidores e é presidida por Luiz Eduardo Barata, ex-diretor-geral do ONS.4243
O que defende. Dizem que o leilão de 2026 contratou mais do que o necessário e vai encarecer a conta de luz.44 A ABRACE quer contratos longos de gás para a indústria e diz que baterias e resposta da demanda podem ser alternativas mais eficientes às térmicas.41
Onde aparece. A Frente pediu ao Ministério consulta pública sobre a reforma do setor elétrico43 e foi contra a derrubada de vetos na lei da eólica no mar: um estudo da consultoria PSR, analisado por ela, estimou o custo desses trechos em até R$ 545 bilhões em 25 anos.42
Ambientalistas
Instituto Arayara
Organização ambiental.
Ver mais
Quem faz parte. Organização ambiental, presidida por Juliano Bueno.45
O que defende. Critica a contratação de fontes fósseis diante dos compromissos climáticos do país.44
Onde aparece. Foi à Justiça contra o leilão de 202644; em 2025, moveu cinco ações contra um leilão de áreas de petróleo e gás da ANP.45
Do lado do governo, o Ministério de Minas e Energia faz a política; a ANP regula o gás, e a ANEEL, a eletricidade; a EPE planeja; e o ONS decide quando cada usina liga. A página Quem opera explica o papel de cada um.
Quem são os donos
Ao contrário da energia solar, que tem milhões de donos com placas no telhado, as usinas a gás estão nas mãos de poucas empresas grandes. No cadastro da ANEEL de outubro de 2026, a Petrobras tem 24,0% da potência a gás em operação. O cadastro mostra a empresa registrada como dona de cada usina, e não o grupo por trás dela. Somando as empresas de cada grupo, a Eneva vem em segundo lugar, com 19,0%, seguida da GNA, com 14,9% nas usinas GNA I e GNA II, no Rio de Janeiro, e da J&F, com 13,2%. As dez maiores empresas registradas somam 81,1%.46 Os 19,0% da Eneva juntam a própria Eneva e as empresas Parnaíba Geração e Parnaíba II, do Complexo Parnaíba, no Maranhão.15
No leilão de 2026, a concentração continuou: a Eneva levou cerca de 5,06 gigawatts, e Eneva, Petrobras e J&F somaram mais da metade da potência a gás contratada.347
Na outra ponta, quase todo o gás do país sai de poucos campos: o pré-sal responde por cerca de 77% da produção.1
Onde ficam as usinas
O Rio de Janeiro tem a maior potência entre os estados: 8.599 megawatts, cerca de 42,6% do total, em 40 usinas. Depois vêm Maranhão (1.881), Sergipe (1.602) e Amazonas (1.547). A maior usina é a GNA II, no Rio de Janeiro, com 1.672,6 megawatts.46 As usinas ficam perto de onde o gás chega: dos gasodutos do pré-sal, dos terminais de navio ou dos campos em terra.315
Em outubro de 2026, a ANEEL registrava 182 usinas a gás natural em operação, somando 20.180 megawatts, e 9 em construção, com 2.825 megawatts.46
A animação abaixo mostra como essas usinas foram aparecendo, de 2000 a 2026. Ela começa sozinha quando aparece na tela; depois, é só apertar o botão ou arrastar a barra até o ano que quiser. Cada usina conta a partir do ano em que começou a operar. Só entram as usinas que ainda funcionam hoje, e as que começaram antes de 2000 aparecem já em 2000.46 O maior salto veio logo depois do programa de termelétricas de 2000: a potência das usinas de hoje passou de cerca de 1.700 megawatts em 2000 para cerca de 8.500 em 2004.4619
As usinas a gás chegando ao mapa
usinas a gás naturalcírculo maior = mais potência
2026
–potência das usinas
–usinas
Potência das usinas a gás natural em operação em outubro de 2026, somada pelo ano em que cada uma começou a operar. Usinas que já fecharam não aparecem; as que começaram antes de 2000 aparecem em 2000. Pontos: usinas agrupadas em áreas de cerca de 75 km. Fonte: ANEEL, SIGA (fonte 008). Contorno dos estados: IBGE (fonte 134). 2026: até outubro.
O mapa mostra onde estão as usinas a gás em outubro de 2026. Cada círculo é uma usina, no lugar informado pelo cadastro da ANEEL, e é maior quando a usina é maior. Clique num círculo para ver o nome, a empresa dona e o ano em que começou a operar.46
O mapa de hoje
Mapa interativo, outubro de 2026. Cada círculo é uma usina a gás natural; clique para ver os detalhes. Fonte: ANEEL, SIGA (fonte 008). Uma usina sem coordenadas no cadastro ficou de fora.
O que o Brasil produz e o que importa
Produção. De janeiro a agosto de 2025, os poços brasileiros tiraram em média 173 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Mas só 53 milhões chegaram ao mercado. A maior parte, 94 milhões, foi devolvida aos reservatórios; 5 milhões foram queimados ou perdidos, e o resto foi consumido nas próprias instalações de produção ou ficou no processamento.2
Importação. No mesmo período, o país importou em média 17,9 milhões de metros cúbicos por dia: 12,3 milhões da Bolívia, pelo Gasbol, e 5,6 milhões em navios de GNL.2 No ano todo de 2025, a dependência de gás de fora foi de 19%.48
O GNL é a reserva da reserva. O gás de navio é o que mais varia: em agosto de 2025, mês de seca, a regaseificação chegou a 8,6 milhões de metros cúbicos por dia, contra a média de 5,6 milhões no ano.2 Os terminais de navio ficam em vários estados, do Pará a Santa Catarina.49
O Brasil e o mundo
O gás natural fez 21,8% da eletricidade do mundo em 2025, segundo o centro de estudos Ember. No Brasil, foram 7,3%, abaixo do pico de 13,7% em 2014. O Japão, que tem pouca água e pouco vento para gerar energia, fez 33% com gás.50
O mundo produziu cerca de 4.197 bilhões de metros cúbicos de gás em 2025. Os Estados Unidos sozinhos produziram cerca de um quarto (1.074 bilhões), seguidos pela Rússia (609 bilhões) e pelo Irã (265 bilhões), segundo o Energy Institute.51 O gás que chegou ao mercado brasileiro de janeiro a agosto de 2025, cerca de 53 milhões de metros cúbicos por dia, equivale a cerca de 19 bilhões por ano, perto de 0,5% da produção mundial. A conta é aproximada, porque as duas fontes medem de jeitos um pouco diferentes.251
O Brasil poderia ser autossuficiente em gás?
O que o Brasil tem. Gás não falta debaixo do mar: os poços brasileiros produzem quase dez vezes o que o país importa.2
Por que ainda importamos. Mais da metade desse gás volta para os poços. Essa reinjeção ajuda a manter a pressão e a tirar mais petróleo; também pesam a falta de gasodutos para levar o gás até o continente e o teor alto de gás carbônico do gás do pré-sal, que precisa ser separado.7 Em janeiro de 2026, a reinjeção chegou a 55,8% da produção.52
O que se discute. Mais gasodutos e unidades de processamento, como o Rota 3, aumentam o gás que chega à terra.89 Uma lei de 2025 também mudou as regras de venda do gás que pertence à União, para levá-lo a indústrias que usam muita energia, como as de fertilizantes.34 Mesmo assim, as usinas a gás usam muito gás em anos secos e pouco em anos de chuva, e o GNL de navio é o jeito mais simples de atender a essa variação.2
Problemas do gás
Gás devolvido ao poço. O Brasil reinjeta mais da metade do gás que produz, e o motivo principal é técnico e econômico, não falta de gás.72
Dependência da Bolívia. A produção boliviana está caindo, e a EPE prevê menos gás de lá.18 Em 2006, a nacionalização do gás na Bolívia mostrou o risco de depender de um vizinho.20
Gás de navio é caro e muda de preço. O GNL é comprado no mercado internacional e acompanha o preço de lá. Em agosto de 2025, o GNL importado pelo Brasil custou cerca de US$ 23,7 por milhão de BTU, a unidade usada no comércio do gás.53
Usinas que geram mesmo quando não precisam. A inflexibilidade faz usinas a gás gerarem mesmo quando outra energia seria mais barata.27
Um leilão contestado. O leilão de 2026 foi questionado no Tribunal de Contas da União, que viu indícios de preço alto e pouca disputa, e no Ministério Público Federal, que criticou o aumento de até 100% nos preços máximos às vésperas do leilão. A ANEEL homologou o resultado em maio de 2026, sem impedir as apurações.54
Quem paga a conta
Uma usina a gás custa de dois jeitos: para existir, pronta para ligar, e para gerar, porque gás custa dinheiro. Os dois custos acabam, de um jeito ou de outro, na conta de luz.
Para existir. No leilão de reserva de capacidade, a usina recebe um valor fixo por ano para ficar disponível. Esse custo é dividido entre todos os consumidores do sistema por meio de um encargo, cobrado na conta de luz conforme o consumo.55 No leilão de 2026, o preço médio foi de cerca de R$ 2,33 milhões por megawatt por ano.56 As receitas fixas somam R$ 38,9 bilhões por ano, segundo a eixos.44
Para gerar. Quando o ONS liga as térmicas mais caras, a conta pode ter bandeira amarela ou vermelha.57 A página Tarifa explica as bandeiras.
Os dois lados. A ABRACE calculou que o leilão de 2026 vai custar R$ 40 bilhões por ano e pode subir a tarifa média em cerca de 10%.58 O governo contesta: diz que trocar térmicas antigas por contratos mais flexíveis vai reduzir o custo da tarifa em 24%.47 As geradoras térmicas dizem que, sem o leilão, blecautes e racionamentos custariam muito mais.37
Mitos e dúvidas comuns
"As usinas a gás só ligam quando falta chuva?" Não. Em 2025, 38,4% da energia das usinas a gás identificadas veio de inflexibilidade fora da ordem de custo: geração que a própria usina declara que precisa fazer, mesmo quando outra seria mais barata.27
"O Brasil usa todo o gás que produz?" Não. De janeiro a agosto de 2025, 54% do gás produzido voltou para os reservatórios.2 Veja a seção O Brasil poderia ser autossuficiente em gás?
"Gás natural é energia limpa?" Ele emite menos que o carvão ao queimar, mas o metano que escapa na extração e no transporte esquenta muito o planeta. Se esses vazamentos forem grandes, a eletricidade a gás pode emitir tanto quanto a de carvão.59
"O gás de cozinha é o mesmo das usinas?" Não exatamente. O gás do botijão é o GLP, uma das partes separadas do gás "rico" na UPGN. O gás das usinas e dos canos das cidades é o gás natural, que sai da UPGN depois dessa separação.9
O futuro em números
Garantia de potência. Com mais energia solar e eólica, que variam, o plano da EPE vê as térmicas a gás flexíveis, que ligam e desligam rápido, como as principais candidatas para garantir potência: 11,7 gigawatts indicativos até 2035.60
O que o leilão de 2026 já contratou. O leilão contratou cerca de 19,5 gigawatts, dos quais 15,2 em usinas a gás. Cerca de 8,9 gigawatts são de usinas a gás novas, que entram a partir de 2028. Com elas, o parque térmico do país passaria de cerca de 45 para 53,9 gigawatts.3
Emissões do sistema. Para o Sistema Interligado Nacional, a rede nacional, o plano estima emissões de 13 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente em 2025 e 29 milhões em 2035, numa condição média de chuvas, ainda considerando as térmicas obrigatórias que depois foram revogadas.61
Outros impactos
Ar. A queima do gás praticamente não solta partículas de fuligem, ao contrário do carvão.62
Água. No estudo da UNECE, o ciclo de vida da eletricidade a gás dissipa, em média, cerca de 1 litro de água por quilowatt-hora; isso inclui, por exemplo, a água que evapora no resfriamento.63
Trabalhadores. A extração de petróleo, gás e carvão exige atenção à saúde de quem trabalha.4
Metano. O metano esquenta o planeta muito mais que o gás carbônico, e parte dele escapa na extração e no transporte por gasodutos. A UNECE diz que esses vazamentos costumam ser subestimados pela indústria e que, se forem grandes, a eletricidade a gás pode emitir tanto quanto a de carvão.59
Queima nas plataformas. De janeiro a agosto de 2025, cerca de 5 milhões de metros cúbicos de gás por dia foram queimados ou perdidos na produção.2
Fontes e método
Ver como os números foram calculados
As informações desta página vêm do Balanço Energético Nacional e do Plano Decenal da EPE, do boletim mensal do gás do Ministério de Minas e Energia, de dados abertos da ANEEL e do ONS, das leis citadas, da página da EPE sobre fontes de energia, da UNECE, do Ember, do Energy Institute, de páginas técnicas sobre usinas e gás liquefeito, e de reportagens identificadas nas notas.
Como os números foram calculados. Produção, reinjeção, importação e consumo: médias de janeiro a agosto de 2025 do boletim do MME (o boletim mais recente publicado); "chega ao mercado" é a oferta nacional do boletim. Geração mês a mês e motivos de geração: dados de 2025 do ONS, somando as usinas cujo nome foi ligado ao combustível gás (77 das 154 usinas do arquivo de motivos). Usinas, estados e donos: cadastro da ANEEL de outubro de 2026; a parte de cada empresa é a potência da usina multiplicada pela sua participação. Leilões de 2006 a 2019: soma da potência das usinas a gás vendidas em cada leilão de geração. Brasil no mundo: oferta nacional média (53 milhões de metros cúbicos por dia) vezes 365 dias, comparada à produção mundial do Energy Institute.
Onde os números diferem. O BEN dá produção de 179,2 milhões de metros cúbicos por dia no ano todo de 2025; o boletim do MME, 173,4 milhões de janeiro a agosto. O BEN dá dependência externa de 19% no ano todo de 2025; no boletim, o gás importado foi cerca de 25% do gás oferecido ao mercado de janeiro a agosto. São medidas e períodos diferentes. Sobre o leilão de 2026, as reportagens dão de 18,97 a 19,47 gigawatts: a diferença é a segunda etapa, de 501 megawatts de usinas a óleo, diesel e biodiesel. Para a Petrobras no leilão, uma reportagem dá 2,2 gigawatts e outra 3,34; esta página não usa esse número.
O que ainda falta. Quantos empregos as usinas a gás geram, o custo de operar cada usina, a comparação do preço do gás no Brasil com o de outros países (a tabela do boletim não pôde ser lida com segurança) e o valor pago pelos consumidores em encargos de segurança energética por usina a gás.
Notas
Ver as 63 notas, com a fonte de cada número
EPE, Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, p. 176 e 251 (fonte 002). ↩
MME, Boletim Mensal de Acompanhamento da Indústria de Gás Natural, agosto de 2025, p. 2, cálculo sobre os dados (fonte 205). ↩
Brasil Energia, "Como fica a matriz após o leilão de capacidade", 30 de março de 2026 (fonte 208). ↩
eixos, "Transição calcula que políticas para térmicas vão custar R$ 500 bi para consumidores", 8 de dezembro de 2022 (fonte 216). ↩
BMA Advogados, informativo "Novo marco do setor elétrico: sancionada a Lei nº 15.269/2025", novembro de 2025 (fonte 226). ↩
IBP, apresentação na Comissão de Minas e Energia da Câmara, "Potencial do gás", 20 de agosto de 2025, slides 4 e 9 (dado de associação) (fonte 1322). ↩
Cenário Energia, "IBP defende realização do LRCAP 2026 e alerta para risco à segurança energética sem leilão", 19 de fevereiro de 2026 (fonte 213). ↩
eixos, "Abraget rebate críticas ao LRCAP em meio a ofensiva judicial contra o leilão", 19 de maio de 2026 (fonte 211). ↩
ABRAGET, apresentação na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados sobre o leilão de reserva de capacidade de 2024, slides 2, 6 e 7 (dado de associação) (fonte 337). ↩
Abegás, nota oficial "Esclarecimentos sobre a formação de preços do gás natural no Brasil", 23 de dezembro de 2025 (fonte 212). ↩
Abegás, propostas aos candidatos à Presidência da República, 2026, p. 3, 13, 37, 63, 64 e 67 (dado de associação) (fonte 1323). ↩
Brasil Energia, "Abrace quer colocar o consumo no centro da política energética", 18 de junho de 2026 (dado de associação) (fonte 1321). ↩
Cenário Energia, "Instituto E+ Transição Energética se junta à Frente Nacional dos Consumidores", 13 de maio de 2025 (fonte 1326). ↩
eixos, "FNCE critica falta de participação social na reforma do setor elétrico e pede consulta pública", 11 de abril de 2025 (fonte 1325). ↩
eixos, "Consumidores de energia e ambientalistas criticam resultado do LRCAP", 18 de março de 2026 (fonte 214). ↩
eixos, "Veja o pacote de ações da Arayara para derrubar leilão de concessão", 28 de maio de 2025 (fonte 1324). ↩
ANEEL, SIGA, dados abertos, cálculo sobre os dados de outubro de 2026 (fonte 008). ↩
eixos, "Muita potência e baixa competição: o resultado do leilão de energia mais esperado de 2026", 19 de março de 2026 (fonte 215). ↩
EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Tabela 1.8, p. 28 (fonte 001). ↩
MME, Boletim Mensal de Acompanhamento da Indústria de Gás Natural, agosto de 2025, p. 6 (fonte 205). ↩
RenewEconomy, "Gas share in global electricity mix falls for fifth consecutive year", 11 de junho de 2026, com dados do Ember (fonte 206). ↩
Rigzone, "Which Countries Produce and Consume the Most Natural Gas?", 2 de julho de 2026, com dados do Energy Institute Statistical Review of World Energy (fonte 207). ↩
Poder360, "Em alta desde 2010, reinjeção de gás no Brasil bate 56% em janeiro", 2 de março de 2026, com dados da ANP (fonte 094). ↩
MME, Boletim Mensal de Acompanhamento da Indústria de Gás Natural, agosto de 2025, p. 7, com dados do Comex Stat (fonte 205). ↩
Movimento Econômico, "Aneel homologa leilão de energia questionado no TCU e no MPF", 21 de maio de 2026 (fonte 209). ↩
Lei nº 10.848/2004, art. 3º-A, com a redação dada pelas Leis nº 14.120/2021 e nº 15.269/2025 (fonte 005). ↩
Poder360, "1º leilão de garantia de energia contrata 19 GW e soma 100 usinas", 19 de março de 2026 (fonte 225). ↩